O que a abertura de um filme e seus créditos tem a ver com a capa e as páginas iniciais de um livro? Para o diretor e para o editor elas são os instrumentos para introduzir o usuário na trama, no assunto, no clima da obra. Para o designer a tarefa é organizar os componentes formais e abrir a porta, ou pelo menos uma fresta, para que o espectador ou leitor possa vislumbrar o que tem por trás de um título. ¶ Os elementos sintáticos tais como tipografia, cores, imagens, texturas, som e movimento (no caso do cinema) devem ser organizados em uma narrativa compreensível pela maioria. Não é um problema simples, nem no cinema nem no livro, porque esses aspectos introdutórios são o que os cineastas chamam de set up, e são ele que transmitem as informacões para que possamos identificar se a obra em questão é um filme de mistério ou de humor, se o livro é de ficção ou técnico, para adultos ou para adolescentes. ¶ A narrativa, organizada pelo designer não pode enganar mas certamente vai iludir os olhares, atentos ou desatentos dos consumidores. ¶ A capa do livro que na sua origem era usada apenas para a proteção do miolo, foi ao longo dos tempos ganhando outras características. Do século XVI ao XIX, as informações que hoje encontramos nas capas ficavam localizadas no frontispício (que sempre foi considerado o RG, a identidade de um livro). Frontispício é um termo arquitetônico usado para fachada e é formado pelas palavras fronte, rosto (frontis) e ver, contemplar (spicium), em latim, também significa cara, no caso a cara do livro. ¶ Há outros termos ligados à arquitetura (uma das artes maiores no Renascimento, e por isso tão influente na novíssima arte de imprimir). As últimas informações do livro se localizam no cólofon, palavra grega para cumeeira, coroamento, término (de uma obra), diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. ¶ Assim o livro se mostra, se expõe pela fachada e se encerra quando o editor instala a cumeeira da obra. ¶ As primeiras capa eram manufaturadas em couro e outros materias nobres e funcionavam como nossas atuais capas duras com gravações douradas na frente e na lombada. Com o passar dos tempos elas passaram a receber uma sobrecapa, para seu transporte e exposição nas livrarias e que era utilizada para proteger a rica capa de couro. ¶ Aos poucos, entretanto, a sobrecapa transformou-se em peça importante da comercialização: imagens atraentes e títulos em belas letras tipográficas passaram a ser comuns nelas.
¶ Hoje em dia não apreciamos mais as capas duras e achamos ruim quando as sofisticadas sobrecapas se rasgam ou se deterioram com o uso. A capa, assim como as aberturas dos filmes pós-Saul Bass, tornaram-se tão importantes quanto o conteúdo. Hoje é comum encontrarmos publicações, como Seven Hundred Penguins, cujo conteúdo são somente capas, sejam de livros, revistas ou jornais: apenas sobre o trabalho dos designers.
Publicado impresso na Revista Abigraf, Fev2010.