A GRADE/GRID DO CONSUMISMO
Atualmente há uma discussão sobre a negação da grade, e muitos questionam a sua utilidade nos dias atuais. Bem, hoje ela também serve para organizar um modo (às vezes alienado) de consumo. Não há mais sentido em reorganizar e reconstruir o mundo, porque o mundo todo já está construído; e o Brasil, em particular, já passou por uma desconstrução nas artes e no design, mas nem chegou a se construir. Então, a partir daqui, toda a vida de quem produz e de quem cria começa a mudar. Para alguns historiadores esse pós-modernismo é ainda um modernismo fantasiado, pois para eles só há pós-modernismo quando se muda o paradigma tecnológico.
Em termos de design visual, passam a ocorrer manifestações que fogem da tecnologia. Claro que, como em qualquer outro campo, haverá aqueles que continuarão trabalhando com os princípios modernistas. Eu, por exemplo, se estivesse fazendo arquitetura hoje, estaria fazendo segundo o modernismo e seus princípios de ordem. Ninguém pode tirar de você as coisas que você aprende; nem você mesmo.
Ao mesmo tempo, há designers contemporâneos trabalhando no mundo artesanal. Por exemplo, há um movimento na França chamado Handmade Design (não sei por que o nome é em inglês, já que os franceses são completamente anglofóbicos). São vários artistas, na faixa etária dos 50-60 anos, que não utilizam o computador para nada; tudo é feito à mão. Também veremos esse fenômeno na esfera do produto, principalmente no mobiliário.
No Brasil, em particular, eu creio que a grande característica do design vai ser essa: trabalhar quase beirando ao artesanato. O próprio Philippe Starck fez uma cadeira, mostrando ao Brasil o que nós devemos fazer com a madeira: “Vocês não podem tentar desenvolver produtos de alta tecnologia. O design brasileiro está fadado a trabalhar com madeira, porque é o único país do mundo que tem um nome que é uma árvore, e vai ser o último país do mundo a ter madeira natural.” Os designers brasileiros sabem trabalhar a madeira, e não necessariamente a ideia de utilizar a madeira como massa; a madeira vai ser usada como Philippe Starck usa – um pé de palito em um assento em plástico de alta tecnologia. Eu o considero como o maior ideólogo, e o maior pensador de design de produto contemporâneo. Sobre um espremedor de frutas que parece uma aranha, feito por ele mesmo, Starck disse em uma entrevista que havia uma função ideológica e outra social: para a função social, pensou em uma situação em que não há muito assunto, as pessoas olham esse objeto e descubram nele um assunto para conversar; e a explicação ideológica era mostrar para os americanos que não é preciso ligar um objeto na tomada para espremer um limão. Claudio Ferlauto
Trecho da palestra Design contemporâneo: moderno e pós-moderno?, proferida para a aula inaugural do curso de design da FAU/USP em 2007. A publicação Panorama do Design Contemporâneo, está sendo preparada pela equipe da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, USP, São Paulo, para lançamento em 2009.