Marco Vacchetti, in Storie dell’Arte, ed. Scuola Holden, Milão, Itália, 2000.
(…) Um museu se assemelha um pouco a uma biblioteca. É um conjunto de textos, documentos, narrativas. Mas quando vamos a uma biblioteca, seria muita tolice ter a pretensão de ler todos os livros que ela contem. Nos museus, ao contrário, a voracidade do turismo cultural nos acostumou a esta postura: queremos experimentar de tudo. Desta maneira acabamos de ver o Louvre, o Prado, os Uffizi, não as obras. O olhar do visitante em um museu pode virar o filho de um olho cego, de uma atenção surda, que se satisfaz com um rápido reconhecimento.¶ Esta atitude seria o mesmo que imaginar ter visitado e conhecido uma região só porque cruzamos através dela por uma auto-estrada. ¶ Nossa percepção das obras de arte não deveria tratar-se de ser uma visão a partir da estrada. Dar uma folheada em um livro não significa tê-lo lido, assim como, dar uma olhadinha na superfície de uma pintura sem questionamentos, não significa observá-la. Olhamos a imagem, mas não a vemos. Para existir um olhar compreensivo, e este nasce originalmente de um olhar curioso, é necessário fazer escolhas. Escolher a sala [do museu], escolher uma única obra, um autor. Olhar poucas imagens ao redor, olhar com atenção e curiosidade. Uma pinacoteca não é uma televisão. Isto não porque a Arte seja sublime e a televisão contenha apenas lixo, mas porque a diferentes meios correspondem diferentes lógicas de exibição das imagens. Enquanto o produto televisivo é produzido por acúmulo, a obra de arte, realizada centímetro por centímetro, é pensada por rarefação. Conduzir os próprios olhos no interior das salas de um museu não deveria ser um gesto como aquele de trocar de canal do aparelho de TV. ¶ O esfacelamento do olhar é nocivo a uma percepção em profundidade —única maneira útil a permitir a reflexão. Muitos museus são dominados pelo critério da acumulação. Ou seja, maior o número de obras primas, mais importante parece ser o próprio museu. O efeito é paradoxal: quanto mais obras são agrupadas, tanto menor é a atenção que o visitante lhe dedica, e tanto maior é a canseira. Argo, no entando, com seus cem olhos, arrisca-se a ir dormir com os pés doloridos. ¶ O equívoco de nossa suposta civilização das imagens é afirmar que ler as imagens é mais fácil e simples que ler a palavra escrita. ¶ Olhar não é ver. Como nas academias de arte e nas escolas de desenho pode ser mais útil educar em primeiro lugar o olhar, antes de treinar a mão, assim nos museus e nas galerias de arte poderia ser produtivo estimular um olhar com inteligência, dar acuidade à perspicácia perceptiva, desenvolver a intensidade da visão. ¶ Procurar compreender se no interior ou diante de uma obra existe uma narrativa e, em caso de resposta afirmativa, compreender qual, significa avançar um passo para apreender a ler as imagens. Entender a maneira como uma história é narrada, tanto quanto representada visualmente nos permite aprofundar o nosso conhecimento visual. Dirigir a atenção aos princípios narrativos que podem estar presentes numa obra de arte nos empurra a observá-la numa perspectiva diferente. Portanto diante de uma tela ou de um bloco de mármore podemos experimentar algumas perguntas: narra uma história? ¶ Qual? De que tipo? De que modo?