Arquivo da Categoria ‘tipografia’

Confiando no olhar

segunda-feira, 22 de março de 2010

Para Elliot Earls o design tipográfico, nos anos 1990, tinha seu foco em três áreas: o revival histórico, a interpretação vernacular, e o desenvolvimento exclusivamente formal. Enquanto as duas primeiras áreas são autoexplicativas, o termo “desenvolvimento exclusivamente formal” exige alguma reflexão. ¶ Quando alguém está criando uma tipografia não diretamente gerada de um modelo existente, é preciso estabelecer um discurso do ponto de vista da Biologia em que se relacione olhar e desenhar —entre a retina e o cortex. ¶ O Programa de Fundamentos, da Escola de Design da Basileia, Suíça, coloca uma grande ênfase no conhecimento da forma por meio do desenho. É no espaço tradicional dos ateliês de desenho que se ensina como fixar o movimento da retina ao movimento da mão. ¶ Para se ter sucesso neste processo, aprende-se que, é necessário que a mente esteja tranquila. A mão e a retina devem se movimentar simbióticamente em passos seguros que  levam a produzir o traço físico, real. ¶ É por meio desse processo que podemos aprender a confiar não na mente, mas na retina. No olhar.
Publicado em Emigre #65, 2003

Elliot Earls. Ex-aluno de, e artista residente em Cranbrook desde 2003.

Pôster da série Eleven Posters for Cranbrook Academy of Art, 2008

Pôster da série Eleven Posters for Cranbrook Academy of Art, 2008

Trienal norte-americana de design

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

DesignLifeNowComo nos EUA o design é o guarda-chuva das disciplinas de projeto como arquitetura, moda, produtos, web, o catálogo da trienal de design, intitulado Design Life Now, mostra cada vez mais projetos de arquitetura e fashion design ao lado de projetos gráficos, de produtos e mídias digitais. Chama a atencão o destaque dado a projetos de Santiago Calatrava, Bernard Tschumi, Rem Koolhaas e outros arquitetos. Mas é interessante ver os esboços, feitos a mão, das primeiras idéias dos filmes da Pixar ao lado dos interiores dos novos Boeings; as páginas do Google e do blog Speak Out, de Armin Vit e Bryony Gomez-Palácio; novos projetos da Nike e da Apple. E muitos objetos, gadgets e robôs da nossa era eletrônica. A estranha e híbrida família tipográfica usada na capa e no miolo do livro é a The Clash, desenhada especialmente para a trienal pela equipe da COMA de Nova York-Amsterdã. O livro refere-se ao evento realizado em 2006. Claudio Ferlauto

Os incríveis, desenho da Pixar: desenhos iniciais de Lou Romano.

Os incríveis, filme da Pixar: desenhos iniciais de Lou Romano.


O editor padeiro, por Claudio Rocha

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A segunda edição da revista Tipoitalia traz um artigo sobre Alberto Casiraghy, um editor ímpar, inteligente e generoso. Ele mora e trabalha em um local mágico, em Osnago, na província de Lecco, na Itália. Eu o visitei para selecionar as imagens que ilustram o artigo. Mais do que um encontro profissional, foi uma experência surpreendente. Alberto simplesmente transcende o conceito de editor e de tipógrafo. Requisitado em toda a Europa, nos EUA, no Japão, ele se desculpa modestamente: “não tenho e-mail nem computador, senão eu iria ficar preso, cuidando da correspondência…”  A sua linha editorial é espontânea e verdadeira, como o editor : “quem sou eu para dizer o que é belo ou o que deve ser publicado?” Ele prefere, investir na cumplicidade e na liberdade de pensamento.
No artigo para a Tipoitalia, Sandro Berra, diretor do museu Tipoteca Italiana, descreve assim o homem e seu trabalho: Scripta volant *. Os livros da editora Pulcinoelefante, de Alberto Casiraghy, tem o dom da leveza e de saber se liberar em pleno vôo. O que mais poderíamos esperar destas edições “nascidas em 1992, em uma tarde de vento. E desses golpes de ar nasce a liberdade de intenções: brincadeira, ironia e sobretudo a alegria da manualidade na composição com tipos de metal e da impressão tipográfica.”
A propósito de vôo e de vento, me divirto ao imaginar que se Saint-Exupery publicasse hoje o Pequeno Príncipe, escolheria Alberto Casiraghy como tipógrafo. Seguramente se encaixaria no formato e na filosofia dos Pulcinoelefante, além de poder trabalhar (e viajar) com ele. Os Pulcinoelefante são herdeiros modernos do célebre Festina lente: a âncora e o delfim se materializam hoje em um elefante-pulga.**
Ninguém pode contestar o frescor tipográfico das edições de Alberto: ela saem do forno em uma jornada, com um odor atraente de pão quente —uma mistura natural de papel e tinta—  para ser inalado. O texto (quase sempre um aforisma) ganha vida no papel da maneira mais despojada possível, graças a um Garamond ou um Bodoni impressos com força impecável e fulminante, exatamente como deveria ser tatuada a pele de nossa alma, com o pensamento ali contido. Parece inexaurível a seiva de quase 8 mil edições de livros de artista, um número espantoso pela qualidade e pelas idéias…
Notas
* do provérbio latino «verbo volant scripta manent» (as palavras voam, a escrita permanece)
** referência à frase em latim que acompanha a marca de Aldus Manutius, festina lente (se apresse devagar)
.

Veja mais em www.tipoitalia.it

A Tupigrafia italiana de Claudio Rocha

sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Editor Claudio Rocha, Genova, Itália

Editor Claudio Rocha, Genova, Itália www.tipoitalia.it

Grade/grid cerebral

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Hannah B. Higgins é professora de História da Arte na Universidade de Illinois, ainda desconhecida no Brasil e mostra em seu The grid book que a grade/grid é mais antiga do que se imagina e tem suas origens nos mais distantes de nossos ancestrais quando estesinventaram o tijolo. Sua obra lança um olhar plural e subversivo (segundo Lorraine Wild, na quarta capa) sobre os aspectos da arte, do design, da arquitetura, da geografia e da sociologia que estão envolvidos nesse pensamento organizador criado pelo homem. ¶ Para ela as principais grades/grids são o tijolo, a tabuleta suméria, o planta das cidades, os mapas, a notação musical, a tela, a tipografia, o livro caixa de contabilidade, os objetos em formato de caixas/cúbicos e as redes/networks. A autora afirma que o tijolo permitiu ao homem organizar sua proteção por meio da construção de abrigos individuais e coletivos como a casa e a cidade murada, assim como a tabuleta (suméria) organizou as normas e convenções de sua vida social e criou proteções de seus direitos individuais.  ¶ Ela não exita em afirmar que Guttenberg inventou, em 1454, um terço daquilo que chamamos de “imprensa de tipos móveis” —já que ele já conhecia uma série de prerequisitos (partes já inventadas) como o papel, o [livro em forma de] codex, blocos de impressão para tecidos, pigmentos a base de óleos que induziram-no a sistematização do processo, com a ajuda de sua prensa de fazer vinho, que redundou na Biblia de 42 linhas, um dos primeiros livros e a primeira grade/grid tipográfica que viriam influenciar a confecção dos livros até os dias de hoje.

The grid book, Hannah B. Higgins, MIT Press, Cambridge, 2009. 300 páginas, ilustrado.

The book of grid

Perguntando de novo:

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Que fontes voce varreria para sempre de seu desktop?

A jornalista espanhola Begoña Gómez afirma que os designers detestam a Arial e gostariam de banir a Comic Sans do planeta.

Veja mais em

A personalidade dos caractéres,

do dia 21 maio 09


Três livros para quem trabalha ou curte tipografia, cinema, video, narrativa visual e imagens da arte e da ciência

domingo, 26 de abril de 2009

tres livros

01 ¶ Digital Typography de Donald E. Knuth. CSLI, Standford, 1999.
This is an electrifying Book. The essays collected here helped lead typography from its mechanical and photographic past into its electronic, digital future.
A obra abre a caixa preta da tipografia digital. Pura matemática.
02 ¶ Digital storytelling de Shilo T. McClean. The MIT Press, Cambridge, 2007.
O autor, entre outras coisas, faz a defesa dos efeitos visuais digitais —DVFx, em inglês digital-visual-effects— como elemento importante e autêntico da narrativa cinematográfica contemporânea.
E muito mais.
03 ¶ Six Stories from the End of Representation de James Elkins. Standford University Press, Standford, 2008.
Tem como complemento do título: Imagens na pintura, fotografia, astronomia, microscopia, partículas físicas e mecânica quântica, 1980-2000, que é o período em que o autor desenvolveu sua tese e uma metodologia de pesquisa para relacionar ciência e humanidades.
Bela viagem.
Claudio Ferlauto

“Nova Programação Visual Rede Minas de Televisão” – Eduardo Braga

sexta-feira, 27 de março de 2009

para ler: artigo publicado no centro português de design

“Nova Programação Visual Rede Minas de Televisão” – Eduardo Braga

O que é a assinatura em movimento? Escrita: tempo, tipografia… Movimento: escritura, registro… Texto: identidade, fala, traço, sílaba, esboço, geração de conceito verbal… Texto visual: cpf digital.

Registro de falanges sociais, territórios imaginários de nossa mente binária, compilações de uma verdadeira história regional, olhar mundial alterado pela realidade diária, trabalho verdadeiro, tiro certeiro, composições geométricas e orgânicas, desprovidas da obsessão dos argumentos técnicos. O fazer consciente, imagem diferente, tipografia que transmite, informa, transforma dados em conhecimento, constrói, apresenta e transgride a sua tela – visão ampliada não em sinal analógico/digital – mas sim em pesquisa, história, conceito, vontade do nosso universo.
Leia ou não, nossa nova tela vai te ver.

Perceber a ação ? ler o cotidiano.

Redefinir relações de conteúdo e marcar territórios via satélite com traço próprio. Ações cotidianas de produção e transmissão, escrever as formas, transformar os caracteres em imagem, imaginar as imagens em letras, textos e títulos. Informar, questionar, discutir a legibilidade, propor a ação da leitura, codificar uma escala de ruídos, compor a estética através da ergonomia, dos eixos x e y, das gerações dos 20, 30, 40, e todas as demais. Ampliação da sensibilidade do receptor, da luta contra o modelo do cabo, do padrão do sinal aberto, do conteúdo a ser transmitido e compreendido em bits-átomos.

O nome de tudo talvez seja percepção e reação.

Vivenciar pequenas imagens, grandes realidades, grandes faces, brutais e gigantescas: capitalismo, globalização, robotização. A falência dos sistemas tradicionais, o pluralismo eletrônico, a babilônia gráfica, a desconstrução. A transformação da tipografia, a tecnologia que amplia e cria universos virtuais. A percepção única e total do designer e seus modos de escrever a história gráfica, tipografia.

Não somos o código, somos o conteúdo.

Ver não se evita.

Em um mundo cercado e prisioneiro das imagens, onde os sons podem ser gráficos e as imagens tipográficas, como compor a mensagem dos tempos atuais?

É preciso conectar e traçar as linhas, a fim de se criar uma identidade própria, local ? seus registros, regional. Os registros, globais, aqueles registros, tipografia, nossa história narrada com toda a retórica que exige a cultura mineira e nacional.

Foi com todos estes questionamentos e posicionamentos que, em fevereiro de 2002, assumi o compromisso e a responsabilidade de criar, implantar e coordenar, com todas as letras, o Núcleo de Design da Diretoria de Produção e Programação da Rede Minas de Televisão, criado pelo projeto Evolução. O objetivo era o de apresentar uma nova identidade, não só para a programação da emissora, mas uma identidade verdadeira, que fosse ao encontro das propostas do projeto em curso e, principalmente, da missão da Rede Minas. E, para tanto, desenvolvemos tipografias específicas para os programas, com a intenção de resgatar e apresentar a verdadeira face cultural de cada um deles. Os projetos, que não se limitam a imagens, mas sim a uma história gravada ao longo dos minutos, expressam nossa cultura e nossa personalidade únicas, nestes ares Gerais de nosso tempo.

O resultado foram janelas abertas para nossa história, nossa sociedade, nossa atmosfera. E, principalmente, a vontade de se construir uma linguagem que experimente e que busque esgotar possibilidades de design, em um veículo tão influente e poderoso que é a TV. Foi este norte que nos moveu para o sul, sudeste e para todos os sentidos, buscando um único e importante resultado: um trabalho verdadeiro, que não quer se conectar com a obrigatoriedade de seguir tendências, padrões, mas correr todos os riscos da evolução da linguagem gráfica. Vinte e uma identidades visuais para programas de nossa grade, todas com um padrão tipográfico específico, e mais quatro identidades de projetos em curso na emissora que seguem a mesma orientação. Diversas vinhetas institucionais que têm como base de sustentação e informação a tipografia, seja em camadas de informação, e/ou em camadas de imagens, ruídos e rupturas.

Traço profundo.

Para o desenvolvimento dos projetos mencionados acima, utilizamos uma metodologia apoiada no design de informação, que nos permite comunicar e, ao mesmo tempo, revelar conhecimentos.
Em todas as etapas de desenvolvimento de nossos projetos o texto esteve presente integralmente, seja nas entrevistas (orais e posteriormente redigidas), realizadas pelos designers com os diretores dos programas, seja na compreensão e assimilação dos conteúdos dos programas, apresentados via oral e magnetizados, ou, finalmente, na geração dos textos-conceito para cada programa. O resultado não poderia ser outro senão a tipografia a favor da transformação dos dados, transformada em conhecimento e aplicada na verificação destes dados, transformando-se em sabedoria. Mas qual será esta sabedoria, na era da informação? Leitura de uma imagem, compreensão integral do repertório de um nome representativo referente a um conteúdo, ou assimilação de novos conceitos gráficos em um meio mágico que se chama TV?… Para ver!

Sejam bem-vindos às novas realidades virtuais da nossa nova vida real.